O oceano, berço da vida e fonte inesgotável de maravilhas, está em apuros. As mudanças climáticas, impulsionadas pela ação humana, estão elevando a temperatura das águas a níveis alarmantes, como evidenciado pelo estudo de (Cheng et al., 2023), publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences. Em 2022, a temperatura média dos oceanos atingiu um novo recorde, um sinal preocupante para o futuro do planeta, especialmente para países como o Brasil, cuja história, cultura e economia estão intimamente ligadas ao mar.
Compreendendo a Profundidade da Crise: Impactos do Aquecimento dos Oceanos
No Antropoceno, era geológica marcada pela influência humana no planeta, o aquecimento dos oceanos desencadeia uma cascata de consequências que amplificam os desafios socioambientais. A acidificação das águas, o aumento do nível do mar e a intensificação de eventos climáticos extremos, como tempestades e furacões, são apenas algumas das faces dessa crise.
O aumento da temperatura oceânica interfere nas correntes marinhas, essas artérias vitais que transportam nutrientes e regulam o clima global. Segundo o IPCC (2021), “mudanças na temperatura e na salinidade da água podem alterar a densidade das correntes marinhas, afetando sua circulação e impactando a distribuição de calor, nutrientes e organismos marinhos”. Com o aquecimento, essas correntes podem se alterar, causando desequilíbrios ecológicos em larga escala e afetando a vida marinha de maneiras ainda imprevisíveis.
Os recifes de coral, considerados “florestas tropicais do mar” pela sua rica biodiversidade, são particularmente vulneráveis ao aumento da temperatura da água. O branqueamento de corais, um fenômeno que ocorre quando os corais expelem as algas que lhes fornecem alimento e cor, é uma ameaça crescente. “O branqueamento em massa de corais já causou perdas significativas em recifes de coral em todo o mundo, e as projeções indicam que esses eventos se tornarão mais frequentes e severos com o aquecimento contínuo dos oceanos” (Pörtner et al., 2019).
No Brasil, a elevação da temperatura da água já afeta espécies marinhas emblemáticas, como a tartaruga-de-couro e o peixe-boi marinho. A temperatura influencia diretamente o metabolismo desses animais, afetando sua reprodução, alimentação e migração. Como consequência, populações inteiras podem ser dizimadas, comprometendo o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
As cidades costeiras brasileiras, como Recife, Rio de Janeiro e Santos, também enfrentam a ameaça crescente de inundações. O aumento do nível do mar, impulsionado pelo derretimento das geleiras e pela expansão térmica da água, pode inundar vastas áreas do litoral, impactando a vida de milhões de pessoas e causando prejuízos incalculáveis à economia. O IPCC (2021) estima que o nível do mar pode subir até 1 metro até o final do século, o que colocaria em risco áreas densamente povoadas e infraestruturas essenciais.

Cultura Marítima: Um Farol para a Sustentabilidade
Diante desse cenário preocupante, o Brasil, com sua extensa costa litorânea e rica biodiversidade marinha, precisa liderar o desenvolvimento de soluções inovadoras para os desafios impostos pelo aquecimento dos oceanos. E a cultura marítima, intrinsecamente ligada à identidade brasileira, desempenha um papel crucial nesse processo.
A cultura marítima, em sua essência, nos conecta com o oceano de maneira profunda e singular. Ela se manifesta em cada indivíduo que interage com o mar, seja por meio do trabalho, do lazer, da arte ou da ciência. Ao vivenciarmos o oceano, seja qual for a forma de contato, desenvolvemos um senso de pertencimento e de responsabilidade por sua preservação. A cultura marítima, em suas diversas expressões, nos ensina a respeitar o mar, a conhecer seus ciclos, a valorizar a vida que ele abriga e a reconhecer nossa interdependência com esse ecossistema vital.
Museus marítimos, ao redor do mundo, preservam a memória da nossa relação com o oceano e inspiram as novas gerações a se conectarem com esse universo. Através de exposições, coleções e atividades educativas, esses museus celebram a história da navegação, as descobertas científicas, as tradições culturais e a rica biodiversidade marinha. Projetos de educação ambiental em comunidades costeiras despertam a consciência para a importância da conservação marinha.
Com atividades práticas, palestras e programas de voluntariado, esses projetos promovem o conhecimento sobre o ambiente marinho, os impactos da poluição e as ações para proteger os oceanos. Festivais que celebram o mar, com suas regatas, exposições, apresentações musicais e atividades culturais, reforçam a conexão entre o homem e o oceano, inspirando a admiração e o respeito por esse ecossistema vital.
A Corrente da Mudança: Ações Individuais, Locais e Globais para Proteger o Oceano
Mas a cultura marítima não se resume a contemplar a beleza do mar. Ela também nos impulsiona a agir em sua defesa. Afinal, o futuro dos oceanos depende de cada um de nós. No dia a dia, podemos reduzir nossa pegada de carbono ao diminuir o consumo de plástico, economizar água e energia, e optar por meios de transporte mais sustentáveis. Ao fazermos compras conscientes, privilegiando produtos de empresas que se preocupam com o meio ambiente e com a origem dos recursos marinhos, também contribuímos para a saúde dos oceanos.
Em nível local e regional, a criação de unidades de conservação marinhas, como o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, protege ecossistemas vitais e garante a sobrevivência de espécies ameaçadas. A recuperação de áreas degradadas, como manguezais e restingas, contribui para a resiliência da costa e para a qualidade das águas. A promoção da pesca sustentável, com práticas que respeitam os ciclos naturais e garantem a reposição dos estoques pesqueiros, é essencial para a segurança alimentar e para a economia das comunidades costeiras.
No âmbito global, o Acordo de Paris, assinado em 2015 por 196 países, estabelece metas ambiciosas para combater as mudanças climáticas e limitar o aquecimento global. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, com destaque para o Objetivo 14 (“Vida na Água”), visam a conservação e o uso sustentável dos oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. É crucial que os países se unam para cumprir esses compromissos e garantir um futuro para o planeta.
Ciência e Educação: As Âncoras da Esperança
A comunidade científica, com suas pesquisas e descobertas, desempenha um papel fundamental na compreensão dos impactos do aquecimento dos oceanos e na busca por soluções para o problema. Instituições como o Instituto Oceanográfico da USP e o Projeto Tamar realizam pesquisas importantes e contribuem para a conscientização pública sobre a importância da conservação marinha.
A educação ambiental, por sua vez, é a bússola que nos guia em direção a um futuro mais sustentável. Ao aprendermos sobre a riqueza e a fragilidade da vida marinha, sobre os impactos das nossas ações no ambiente marinho e sobre as alternativas para um futuro mais sustentável, nos tornamos agentes de mudança.
O futuro dos oceanos depende de cada um de nós. Ao agirmos individualmente e coletivamente, informados pela ciência, inspirados pela cultura marítima e guiados pela educação ambiental, podemos garantir que as próximas gerações também desfrutem da beleza, da riqueza e da imensidão do mar.
Glossário:
- Antropoceno: Época geológica proposta para marcar o período em que a atividade humana se tornou a principal força de transformação do planeta.
- Acidificação dos oceanos: Processo pelo qual o pH da água do mar diminui devido à absorção de dióxido de carbono da atmosfera.
- Mitigação: Ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e limitar o aquecimento global.
- Adaptação: Medidas para ajustar os sistemas naturais e humanos aos impactos das mudanças climáticas.
- Resiliência: Capacidade de um sistema de se recuperar e se adaptar a perturbações.
- Mentalidade Marítima: Consciência sobre a importância do oceano para a sociedade, a economia e o meio ambiente, e a compreensão da interdependência entre o ser humano e o mar.
- Energia eólica offshore: Energia gerada por turbinas eólicas instaladas no mar.
- Economia azul: Modelo de desenvolvimento econômico que utiliza os recursos marinhos de forma sustentável, promovendo o crescimento econômico, a inclusão social e a preservação ambiental.
- Áreas marinhas protegidas: Zonas delimitadas no mar com o objetivo de conservar a biodiversidade, proteger espécies ameaçadas e garantir a saúde dos ecossistemas marinhos.
Referências Bibliográficas:
- Cheng, Lijing et al. Another Year of Record Heat for the Oceans. Advances in Atmospheric Sciences, [S. l.], v. 40, n. 1, p. 963-974, jan. 2023. Springer Science and Business Media LLC.
- Pörtner, H. O., et al. “The ocean is losing its breath.” Science 365.6452 (2019): 403-404.
- IPCC, 2021: Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change1 1 [Masson-Delmotte, V., P. Zhai, A. Pirani, S.L. Connors, C. Péan, S. Berger, N. Caud, Y. Chen, L. Goldfarb, M.I. Gomis, M. Huang, K. Leitzell, E. Lonnoy, J.B.R. Matthews, T.K. Maycock, T. Waterfield, O. Yelekçi, R. Yu, and B. Zhou (eds.)]. Cambridge University Press.2 In Press.