Ventos que Sopram para o Futuro: A Energia Eólica Offshore e o Brasil

A Nota Técnica EPE/DEE/035/2023-R1, publicada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em junho de 2024, analisa o desenvolvimento da energia eólica offshore no Brasil, com foco na definição de áreas para exploração. Intitulado “Geração Eólica Offshore: Considerações sobre a Limitação de Área a Ser Cedida”, o documento defende critérios claros para evitar a especulação, promover a competição no mercado e ressalta a importância do planejamento espacial marinho (PEM) e da densidade de potência.

Um ponto forte da nota técnica é a análise da experiência internacional, que demonstra a diversidade de abordagens para a definição de áreas. Países como Alemanha, Austrália, China e Reino Unido, com maior experiência no setor, oferecem modelos que podem servir de inspiração para o Brasil. A Alemanha, por exemplo, utiliza um sistema de rodadas anuais de licitação com limites de área e potência, enquanto o Reino Unido define áreas específicas para projetos com fundação flutuante.

No entanto, o documento não se aprofunda na análise das especificidades do Brasil, como a extensa costa e a concentração do potencial eólico em algumas regiões. Adicionalmente, a questão da infraestrutura portuária e da cadeia de suprimentos, fundamental para o desenvolvimento da energia eólica offshore, é apenas mencionada.

Torre Eólica Offshore em Águas Rasas
Torre Eólica Offshore em Águas Rasas

Comparando a experiência internacional com a realidade brasileira, podemos destacar alguns pontos de atenção:

  • Planejamento espacial marinho: o Brasil ainda está no início do processo de PEM, enquanto países como Alemanha e Espanha já possuem planos abrangentes que permitem identificar áreas propícias à geração de energia eólica offshore, minimizando conflitos com outras atividades.
  • Densidade de potência: a definição de uma faixa aceitável de densidade de potência é crucial para o uso eficiente do espaço marinho. A experiência internacional mostra que valores entre 3 MW/km² e 6 MW/km² são comuns, mas o Brasil deve analisar suas necessidades específicas, considerando a extensão da costa e a concentração do potencial eólico.
  • Rodadas de licitação: a adoção de rodadas de licitação, como na Alemanha e no Reino Unido, permite o aprimoramento gradual das regras e oferece previsibilidade ao mercado. O Brasil pode se beneficiar desse modelo, adaptando-o à sua realidade.

A importância da pesquisa em estudos marítimos no Brasil

A Nota Técnica da EPE representa um passo importante para o desenvolvimento da energia eólica offshore no Brasil, mas é preciso ir além. Aprofundar a pesquisa em estudos marítimos é fundamental para que o país possa aproveitar de forma sustentável e eficiente o potencial da fonte, gerando empregos, renda e desenvolvimento tecnológico.

O Brasil possui uma vasta área marítima, com grande potencial para o desenvolvimento de atividades econômicas como a exploração de petróleo e gás, pesca, turismo e, agora, a geração de energia eólica offshore. No entanto, o conhecimento sobre o mar brasileiro ainda é limitado, o que pode comprometer o aproveitamento pleno e sustentável desses recursos.

Investir em pesquisa marítima é estratégico para o Brasil por diversos motivos:

  • Conhecimento da biodiversidade marinha: o mar brasileiro abriga uma rica diversidade de espécies, muitas delas ainda desconhecidas pela ciência. A pesquisa permite identificar e catalogar essas espécies, contribuindo para a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento de atividades como a biotecnologia marinha.
  • Monitoramento ambiental: o monitoramento das condições oceanográficas, como temperatura, salinidade, correntes e qualidade da água, é essencial para a gestão ambiental e para a previsão de eventos climáticos extremos, como tempestades e ressacas.
  • Segurança da navegação: a pesquisa em oceanografia física e meteorologia marinha contribui para a segurança da navegação, especialmente em áreas com grande tráfego de embarcações, como a costa brasileira.
  • Desenvolvimento tecnológico: a pesquisa marítima impulsiona o desenvolvimento de novas tecnologias para a exploração e o monitoramento dos oceanos, como sensores remotos, veículos submarinos autônomos e plataformas de coleta de dados.

A geração de energia eólica offshore, em particular, exige um profundo conhecimento do ambiente marinho. A instalação de parques eólicos offshore requer estudos sobre a caracterização do fundo marinho, a avaliação dos recursos eólicos, os impactos socioambientais e o desenvolvimento de tecnologias para a fabricação de equipamentos.

Conclusão

A Nota Técnica da EPE destaca a importância da definição de critérios para a exploração da energia eólica offshore no Brasil, mas a pesquisa marítima vai além. É um investimento estratégico para o país, que permite o aproveitamento sustentável dos recursos marinhos, a geração de empregos e renda, o desenvolvimento tecnológico e a proteção do meio ambiente.

Por fim, o Brasil precisa se espelhar na experiência internacional e destinar mais recursos para a pesquisa marítima, garantindo que o potencial do mar brasileiro seja explorado de forma responsável e eficiente.

Referência Bibliográfica

EPE – Empresa de Pesquisa Energética. Geração Eólica Offshore: Considerações sobre a Limitação de Área a Ser Cedida. Rio de Janeiro: EPE, 2024. 75 p. (Série Notas Técnicas EPE/DEE, 035/2023-R1). Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/nota-tecnica-geracao-eolica-offshore-consideracoes-sobre-a-limitacao-de-area-a-ser-cedida. Acesso em: 10 out. 2024.Fontes e conteúdo relacionado